quinta-feira, 13 de janeiro de 2011

Silêncio intrigante.

   De sua revolução à perversa prisão. De nossa Mãe Gentil à hostil nação estrangeira. Daí, mandava-me cartas escondidamente, documentos que denunciavam suas lágrimas, seu anseio e que me obrigavam a desistir do conservadorismo meu por inteiro.
   A cada revelação de seus prantos por aí no exílio, a angústia crescia, causando-me um entorpecimento de conflitos no espírito. A cada noite mal devaneada por mim, desprezava cada vez mais essa cruel sociedade. Esta, de que Deus tenha a Santa Piedade!
   Seus ideais buscavam liberdade, porém eu os limitava. Infelizmente, esses seus princípios se perdiam em meus pensamentos devido à escassez de sagacidade que eu ainda não tinha diferentemente de ti. Percebia que sua ideologia intrigava com a minha diariamente. Era uma real batalha entre o “Típico”, por ti chamado, e o “Radical”.
   O tempo divino cansou de esperar por uma mudança de meu comportamento. Tinha receio do que o Estado poderia me fomentar. Gabriela adoeceu, enfraqueceu, emudeceu e finalmente morreu. O fogo flamejante de sua alma se apagava. A essência do meu jardim desvanecia. Sua última carta a mim endereçada trazia um trecho da Canção do Exílio*: “Não permita Deus que eu morra, sem que volte para lá; sem que desfrute os primores que não encontro por cá”. Naquele instante, aquela sua suplica dela pela vida me desnorteou, perturbou, dominou, mas o silêncio de meu ser era maior. Calei-me envergonhadamente.
   Após dez anos da morte de Gabriela, ainda me encontro por aqui. Perdidamente, ainda vivo nesse mundo mordaz de vermes. Continuo a procrastinar minha rebeldia com o homem vinda de ti. Alguns juvenis ensaiam uma breve revolução do tamanho da que foi a de Gabriela. As cartas revolucionárias de minha amiga exilada ainda se encontram em meu quarto. Elas ainda não foram desveladas à sociedade, pois não me quero ver exilado como ela. Sim, almejo para mim mesmo metade da bravura dela, entretanto “minha terra tem palmeiras, onde canta o sabiá; as aves que aqui gorjeiam não gorjeiam como lá” e é por isso que não me quero ver fora de cá. Rogo perdão a ti, Gabriela.

*Canção do Exílio é um poema de um dos maiores romancistas nacionais que tivemos, Gonçalves Dias.

4 comentários:

  1. Medo. O que mais combina com o homem.
    Ed, como sempre, nos presenteando com sua percepção de mundo crítica, nojenta e encantadora (ah, eu tenho um jardim! rsrs).
    PARABÉNS!

    Tenho a esperança de, algum dia, ler o meu nome em um dos seus maravilhosos textos (curtiu a indireta? haha).

    Sumi por um tempo. O tempo tem acelerado tudo ao meu redor. Mas, continuo a confiar no tempo ;)

    (Tainã "Há uma pétala...")

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  2. Tive um pouco de dificuldade de ler, por causa do plano de fundo do blog, porém, não me arrependo do que li aqui. Muito bom, Ednaldo. Encontrei seu link na comunidade "Pós-futurismo".
    Parabéns.^^

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  3. Obrigado Tai e você também Arianne. Fico feliz por estarem acompanhando minhas postagens.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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